Tenho percebido uma coisa que, como psicólogo, me deixa bastante curioso: cada vez mais pessoas estão usando a inteligência artificial para falar sobre aquilo que sentem.
E, sinceramente, eu consigo entender o motivo.
É madrugada. Você está ansioso, brigou com alguém, terminou um relacionamento ou simplesmente está com a cabeça cheia. Você pega o celular e escreve para uma IA aquilo que talvez não tenha coragem de falar para ninguém.
E ela responde.
Rápido.
Sem demonstrar impaciência. Sem dizer que você está exagerando. Sem perguntar por que você ainda está pensando nisso. E, principalmente, sem julgamento aparente.
Para quem está sofrendo, isso pode ser muito confortável.
Mas é justamente aí que eu acho que precisamos tomar cuidado.
Uma conversa acolhedora não é psicoterapia
A inteligência artificial consegue conversar muito bem. Em alguns momentos, inclusive, pode parecer que ela realmente nos entende.
Ela pode dizer que nossos sentimentos são importantes, ajudar a organizar pensamentos e apresentar possíveis caminhos para lidar com determinada situação.
Mas existe uma diferença enorme entre isso e fazer psicoterapia.
Psicoterapia não é simplesmente receber uma resposta para um problema.
Existe uma relação humana. Existe vínculo. Existe escuta. Existe contexto. Existe uma história por trás daquela pessoa.
Às vezes, aquilo que o paciente fala não é exatamente aquilo que está acontecendo. Às vezes, uma pausa diz muito. Às vezes, uma contradição merece ser explorada. Às vezes, a pessoa precisa justamente ouvir algo que não queria ouvir.
E é aí que eu vejo uma das limitações da inteligência artificial.
Ela pode responder muito bem ao que você escreve.
Mas uma pessoa é muito mais do que aquilo que consegue colocar em uma tela.
A própria American Psychological Association já vem alertando para os riscos do uso de chatbots em saúde mental, especialmente quando eles passam a substituir profissionais ou se tornam a principal fonte de apoio emocional.
O problema começa quando acreditamos que a máquina nos conhece
Uma das coisas que mais me chama atenção é quando alguém diz:
“Mas o ChatGPT me entende melhor do que as pessoas.”
Essa frase merece uma reflexão.
A IA consegue produzir respostas extremamente convincentes. Ela pode validar sentimentos, organizar ideias e até lembrar coisas que você contou anteriormente.
Só que existe uma diferença entre produzir uma resposta que parece empática e estabelecer uma relação humana.
E existe outro risco: a pessoa começar a procurar na IA apenas aquilo que deseja ouvir.
“Meu namorado está errado?”
“Minha mãe é tóxica?”
“Meu chefe é narcisista?”
“Será que eu tenho TDAH?”
“Será que estou com depressão?”
Se a resposta confirmar aquilo que a pessoa já estava pensando, ela sente alívio.
Mas psicologia não deveria ser simplesmente um lugar para confirmar nossas certezas.
Às vezes, precisamos ser acolhidos.
Mas também precisamos ser questionados.
E o autodiagnóstico?
Esse é outro ponto que considero preocupante.
Hoje alguém pode assistir a alguns vídeos sobre TDAH, ler uma lista de sintomas na internet e, em poucos minutos, chegar à conclusão de que tem o transtorno.
Com a inteligência artificial, isso pode ficar ainda mais fácil.
A pessoa descreve seus comportamentos e recebe uma explicação organizada, aparentemente personalizada.
O problema é que identificar características semelhantes a um transtorno não significa ter aquele transtorno.
Ansiedade, tristeza, dificuldade de concentração, irritabilidade, falta de motivação e problemas de sono podem aparecer em diferentes situações e não significam automaticamente um diagnóstico.
Informação pode ajudar.
Mas informação não substitui avaliação profissional.
O que mais me preocupa: quando a IA começa a ocupar o lugar das pessoas
Imagine alguém que começa conversando com uma inteligência artificial de vez em quando.
Depois passa a conversar todos os dias.
Começa a contar seus problemas.
Pede conselhos sobre o relacionamento.
Pergunta como responder uma mensagem.
Pergunta se deve terminar.
Pergunta se está sendo manipulado.
Pergunta o que deveria fazer.
Até que chega um momento em que a pessoa não consegue mais tomar uma decisão sem consultar a IA.
Nesse momento, eu acho que precisamos fazer uma pausa.
Porque talvez o problema não seja mais a tecnologia.
Talvez seja o lugar que ela passou a ocupar.
E quando isso acontece com adolescentes?
Como psicólogo que atua no ambiente escolar, esse é um ponto que particularmente me preocupa.
Adolescentes já enfrentam uma série de questões relacionadas à identidade, pertencimento, autoestima, relacionamentos, conflitos familiares e pressão social.
Agora imagine alguém nessa fase descobrindo que existe uma ferramenta disponível 24 horas por dia, que responde praticamente qualquer coisa e aparentemente não julga.
É muito fácil criar uma relação de dependência.
Por isso, acredito que precisamos parar de perguntar apenas:
“Quanto tempo você fica no celular?”
Talvez seja mais importante perguntar:
“O que você está procurando quando entra no celular?”
Porque às vezes a pessoa não está procurando entretenimento.
Está procurando companhia.
Está procurando validação.
Está procurando alguém que escute.
E isso diz muito sobre a sociedade que estamos construindo.
Então a inteligência artificial é ruim?
Não é isso que eu penso.
A IA pode ser muito útil.
Pode ajudar alguém a organizar pensamentos, pesquisar informações, preparar uma conversa difícil ou compreender melhor determinado assunto.
O problema aparece quando ela começa a substituir aquilo que não deveria ser substituído.
Um chatbot pode ajudar você a entender o que é ansiedade.
Mas isso não significa que ele saiba o que está acontecendo com você.
Pode ajudar a organizar seus pensamentos.
Mas isso não significa que esteja fazendo psicoterapia.
Pode conversar com você.
Mas isso não significa que exista uma relação humana ali.
Talvez a pergunta mais importante seja outra
Talvez a discussão não devesse ser apenas:
“A inteligência artificial pode ser nossa terapeuta?”
Talvez devêssemos perguntar:
“Por que tantas pessoas estão preferindo conversar com uma máquina?”
Essa pergunta me parece muito mais importante.
Porque talvez exista uma solidão enorme por trás disso.
Talvez as pessoas estejam cansadas de serem julgadas.
Talvez não encontrem espaço para falar.
Talvez tenham medo de procurar ajuda.
Talvez simplesmente não tenham ninguém disponível quando precisam.
A IA consegue preencher esse vazio por alguns minutos.
Mas não necessariamente resolve o que existe por trás dele.
E talvez esse seja o grande desafio que teremos pela frente.
Não impedir que as pessoas utilizem inteligência artificial.
Mas aprender a utilizá-la sem permitir que ela substitua nossos vínculos, nossas relações e, quando necessário, a ajuda de um profissional.
Porque podemos criar máquinas cada vez mais inteligentes.
Mas isso não significa que precisamos nos tornar pessoas cada vez mais distantes.
No final, talvez continuemos precisando daquilo que nenhuma tecnologia consegue oferecer completamente: a presença de outro ser humano.
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