Alguns jogos nos desafiam pelos combates. Outros nos conquistam pela narrativa. Mas, de tempos em tempos, surge uma obra que faz algo ainda mais raro: nos convida a refletir sobre a condição humana. Foi exatamente essa sensação que tive ao jogar Clair Obscur: Expedition 33.

Antes de prosseguir, considero importante fazer um esclarecimento. Este texto não pretende dizer qual é a "verdadeira" mensagem do jogo ou quais foram as intenções dos seus desenvolvedores. As reflexões apresentadas aqui são interpretações pessoais, construídas a partir do meu olhar como psicólogo e como jogador. A beleza da arte está justamente em permitir diferentes leituras.

A premissa de Clair Obscur já é, por si só, perturbadora. Todos os anos, uma figura conhecida como A Pintora grava um novo número em um gigantesco monólito. Todas as pessoas que possuem aquela idade simplesmente desaparecem. Não existe julgamento, escolha ou possibilidade de negociação. A morte é inevitável e acontece como parte de uma regra daquele mundo.

Enquanto acompanhava a história, uma pergunta não saía da minha cabeça: como viveríamos se soubéssemos exatamente quando nossa vida chegaria ao fim?

É claro que, na vida real, não existe um monólito anunciando nossa idade final. Ainda assim, convivemos diariamente com outras formas de finitude. O fim de um relacionamento, a perda de alguém importante, uma mudança inesperada de carreira, o envelhecimento, o encerramento de sonhos ou projetos. Talvez uma das maiores fontes de sofrimento humano seja justamente perceber que não temos controle sobre tudo.

Na minha leitura, Clair Obscur não fala apenas sobre enfrentar monstros. Ele fala sobre enfrentar aquilo que não podemos impedir.


É nesse contexto que conhecemos Gustave e os integrantes da Expedição 33. Eles partem em uma missão que, racionalmente, parece quase impossível. Diversas expedições anteriores fracassaram. As chances de sucesso são mínimas. Ainda assim, eles seguem caminhando.

Confesso que essa parte da narrativa me fez lembrar de muitas pessoas que conheci ao longo da minha atuação profissional. Não porque elas acreditassem que tudo daria certo, mas porque decidiram continuar apesar das incertezas. Muitas vezes imaginamos que coragem é agir sem medo. Porém, tanto na vida quanto no jogo, a coragem parece surgir justamente quando o medo continua presente, mas deixa de determinar completamente nossas escolhas.

Outro aspecto que despertou minha atenção foi a maneira como cada personagem reage ao sofrimento. Embora todos compartilhem o mesmo destino, nenhum deles vivencia essa realidade da mesma forma. Alguns demonstram mais esperança. Outros se mostram mais racionais. Há aqueles que parecem carregar culpas silenciosas e outros que tentam encontrar sentido na própria jornada.

Essa diversidade faz muito sentido quando pensamos na Psicologia. Não existe uma resposta universal diante da dor. Cada pessoa constrói maneiras próprias de enfrentar perdas, frustrações e mudanças. Por isso, costumo dizer que duas pessoas podem viver exatamente o mesmo acontecimento e sair dele profundamente transformadas, mas por caminhos completamente diferentes.


Entre os personagens, Lune chamou minha atenção por buscar compreender o mundo por meio da razão e do conhecimento. Essa característica me fez refletir sobre algo relativamente comum no consultório: a tentativa de controlar o sofrimento entendendo absolutamente tudo o que acontece conosco.

Quantas vezes buscamos respostas em livros, vídeos ou redes sociais, acreditando que, se compreendermos intelectualmente nossas emoções, elas deixarão de doer?

Na minha opinião, Clair Obscur sugere, ainda que de forma indireta, que conhecer a dor não é o mesmo que elaborá-la. Podemos explicar racionalmente aquilo que sentimos e, ainda assim, continuar sofrendo. A compreensão é importante, mas ela não substitui a experiência emocional.


Outro elemento que considero fascinante é o próprio cenário do jogo. Inspirado na Belle Époque francesa, o mundo de Clair Obscur apresenta paisagens exuberantes, arquitetura sofisticada e uma direção artística impressionante. Existe beleza em praticamente todos os ambientes explorados pelo jogador. No entanto, essa beleza convive permanentemente com a ameaça da morte.

Enquanto explorava esse universo, não consegui deixar de pensar nas redes sociais. Vivemos cercados por imagens de felicidade, sucesso e realização. Perfis cuidadosamente editados transmitem a impressão de que todos estão vivendo suas melhores versões. Porém, por trás dessas imagens, muitas pessoas enfrentam ansiedade, solidão, insegurança e sofrimento emocional.

Talvez esse contraste seja uma das metáforas mais interessantes que encontrei durante o jogo. Nem tudo o que parece belo por fora revela aquilo que está acontecendo internamente.

Naturalmente, essa é apenas uma interpretação minha.


Outro aspecto que considero simbólico é a própria Expedição 33. Diferentemente de muitas histórias tradicionais, seus integrantes não são heróis invencíveis. Eles carregam medo, dúvidas, perdas e limitações. Em vários momentos demonstram fragilidade, questionam suas decisões e enfrentam conflitos internos.

Curiosamente, acredito que seja exatamente isso que os torna tão humanos.

Na prática clínica, percebo que muitas pessoas acreditam que saúde mental significa nunca sofrer, nunca sentir medo ou nunca duvidar de si mesmas. Entretanto, essa talvez seja uma expectativa impossível.

Se há uma reflexão que levei comigo após terminar Clair Obscur: Expedition 33, é a de que saúde emocional talvez não esteja relacionada à ausência de sofrimento, mas à capacidade de continuar atribuindo significado à própria existência mesmo quando a vida apresenta perdas inevitáveis.


Considerações finais

Não interpreto esse jogo como uma lição pronta sobre Psicologia. Muito menos acredito que seus personagens representem conceitos clínicos de forma literal. O que vejo é uma obra que abre espaço para perguntas importantes sobre medo, esperança, luto, propósito e vulnerabilidade.

Talvez seja justamente por isso que ela tenha me marcado tanto.

Ao final da jornada, tive a impressão de que o verdadeiro inimigo nunca foi apenas aquilo que surgia pelo caminho. A batalha mais difícil parecia acontecer dentro de cada personagem, entre o desejo de desistir e a decisão de continuar caminhando.

E, sinceramente, acredito que essa seja uma das experiências mais humanas que qualquer história, seja ela um livro, um filme ou um videogame — pode nos proporcionar.